24.9.19

Avaliando um jogador

É difícil apurar o valor contabilístico dos jogadores da formação e até é possível que não tenham valor nenhum ou então apenas um valor residual. A probabilidade de João Félix ter valido contabilisticamente para o Benfica menos de dois milhões de euros é, por isso, muito forte. 

O ativo da Sport Lisboa e Benfica – SAD com maior valor de mercado será, por ventura, o plantel da equipa principal de futebol. Bastará pensar, por exemplo, na venda de João Félix [foto] que, em julho, trocou Lisboa pela capital espanhola para jogar no Atlético de Madrid, a troco de 126 milhões de euros. 

Apesar desta transferência milionária, a SAD benfiquista avaliou, no balanço, o plantel do ano passado em 80,246 milhões de euros, segundo o relatório e contas relativo ao exercício da época desportiva de 2018-2019, divulgado esta quarta-feira em comunicado na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, tal como se pode ver logo na terceira página do documento, na rubrica “Ativos intangíveis – jogadores de futebol”. 

Naturalmente, qualquer adepto de futebol poderá questionar-se sobre este valor. Mas a contabilidade explica. 

Como são avaliados contabilisticamente os jogadores de futebol? 

De acordo com a Norma Contabilística e de Relato Financeiro 6 (NCRF 6) é considerado como um ativo intangível aquele que é “não monetário identificável sem substância física”. Isto é, não é o jogador físico que é o ativo, mas antes o seu passe. 

 Além disso, a NCRF 6 exige que os ativos intangíveis reunam três características. Têm de ser identificáveis, isto é, passíveis de identificação de forma a serem diferenciáveis de qualquer outro ativo, sob pena de não se poderem exercer sobre eles direitos de propriedade (os passes dos jogadores são da propriedade da Benfica SAD). 

 Devem ainda existir e ter proteção legal, e gerar benefícios económicos futuros, como por exemplo, créditos obtidos através de uma futura venda. 

 Uma vez reunidos estas características, os ativos intangíveis devem ser reconhecidos e mensurados no balanço da empresa. No caso da SAD do Benfica – e de qualquer outra sociedade desportiva que compre e venda passes de jogadores – o departamento de contabilidade deve registar o valor do passe do jogador. 

 No caso de aquisição de um ativo intangível, leia-se, no caso de compra de um jogador de futebol, é este o valor a reconhecer no balanço. Assim, por exemplo, quando o SL Benfica oficializou a compra do avançado Raúl de Tomás por 20 milhões de euros, deve reconhecê-lo com esse montante. A isto se chama de reconhecimento inicial. 

 Mas, regra geral, o ativo intangível terá de ser amortizado de forma a registar as perdas dos benefícios económicos que lhe estão associados. Salvo exceções previstas na NCRF 6, a amortização do passe dos jogadores de futebol segue o método da linha reta. Este método consiste em dividir o custo de aquisição deduzido do valor residual pelo número de períodos correspondente à sua vida útil. 

 Por exemplo, em julho a SAD do Benfica comprou o passe de Raúl de Tomás por 20 milhões de euros, que se comprometeu por cinco épocas, até 2024. Ao longo da duração do contrato, contabilisticamente, o passe do jogador vai sendo reduzido em quatro milhões de euros (20 milhões / 5 anos) todos os anos. Na segunda época, valerá 16 milhões, na terceira valerá 12 milhões, e assim por diante. 

 Os jogadores oriundos da formação têm, no entanto, um tratamento contabilístico dos jogadores comprados, porque são ativos gerados internamente pelo clube. 

 Regra geral, o valor dos jogadores da formação que são reconhecidos como ativos intangíveis deverá ser igual ao respectivo custo de produção, ou seja, o montante de todas as despesas incorridas desde a data em que é reconhecido no balanço, algo que é subjetivo. 

 É difícil apurar o valor contabilístico dos jogadores da formação e até é possível que não tenham valor nenhum ou então apenas um valor residual. A probabilidade de João Félix ter valido contabilisticamente para o Benfica menos de dois milhões de euros é, por isso, muito forte.

Fonte: Antônio Vasconcelos Moreira, Jornal Econômico

16.9.19

O múltiplo da Aramco

Há dias, o governo saudita nomeou Yasir Al Rumayyan como presidente do conselho da Aramco, a empresa estatal de petróleo, para tentar acelerar o processo de oferta pública de ação. Formado em Contabilidade, na Universidade Rei Faisal, tem MBA por Harvard. O projeto é colocar 1% das ações na bolsa até o final de 2019 e mais 1% em 2020. Baseado em uma avaliação da empresa de 2 trilhões de dólares, este percentual de 1% corresponde a 20 bilhões de dólares de captação. Os recursos seriam usados pelo reino para diversificar a economia.

 A abertura de capital seria em Riad e talvez Tóquio. Recentemente, a empresa conseguiu colocar 12 bilhões de dólares de um título internacional de dívida. Mas permanece a dúvida sobre o valor de 2 trilhões. Há um certo consenso que a estimativa é muito elevada. Parte deste valor é baseada no preço do petróleo.

O ataque de drones que prejudicaram a produção de petróleo pode aumentar o preço do petróleo. Isto poderia provocar um aumento no valor da empresa. Poderia, se fosse usado somente o múltiplo. As incertezas podem levar a mais questionamento sobre o valor estimado pelo governo saudita de 2 trilhões. Isto significa uma menor produção de petróleo. Além disto, aumenta o risco da geração de receitas futuras.

A principal métrica para a avaliação da empresa é o preço do petróleo . Embora o aumento de 20% do recurso após os ataques possa parecer positivo para os resultados da Aramco, existe uma preocupação considerável de que os riscos geopolíticos crescentes superem esse impacto. "O mais natural é que os prêmios de risco subam, o que reduziria a avaliação", disse uma autoridade ao WSJ. "Na avaliação atual, a Aramco não conta para ataques sérios como esses."

O aumento no risco pode resultar em um desconto adicional de 300 bilhões de dólares, reduzindo o valor da empresa para algo em torno de US$1,2 trilhão. Bem abaixo da estimativa de 2 trilhões.

17.6.19

Taxa de Retorno para Tudo

Uma das premissas do processo de avaliação é usar dados previstos. Entretanto, é muito difícil prever o futuro. Por este motivo, muitas previsões realizadas nas avaliações utilizam dos dados passados, partindo da suposição de que o futuro é uma repetição da história. Obviamente não é preciso alertar para a chance da previsão estar errada em razão desta suposição.

Mas o analista não tem muita alternativa disponível. Em certos laudos, é importante estar sustentado em algo mais “objetivo”, como são os dados passados. Por este motivo, é sempre bom estar atento as pesquisas históricas que possam ajudar nos argumentos utilizados nas avaliações.

Uma pesquisa recente utilizou dados de 1870 até 2015 para calcular alguns dos parâmetros mais importantes para a avaliação. Pesquisadores dos Estados Unidos e da Alemanha reconstituíram o que ocorreu com o retorno de ativos de algumas das economias desenvolvidas. E pela primeira vez eles incluíram o retornos dos imóveis residenciais em um cálculo tão longo. Além disto, também calcularam o retorno das ações, dos títulos do governo e dos títulos de curto prazo. Estes dois últimos foram considerados como investimentos “sem risco”; imóveis e ações foram classificados como investimentos “com risco”.

Os países que foram investigados: Alemanha, Austrália, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Itália, Japão, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça.

Os achados são interessantes e um deles indica que o retorno obtido com imóveis é aproximadamente o mesmo do retorno com o mercado acionário, algo em torno de 7%. Veja no gráfico abaixo que a linha verde (retorno de imóveis) acompanha o retorno do mercado de ações, mas com uma importante diferença: é menos volátil. Ou seja, no longo prazo, quem investiu em imóveis obteve o mesmo retorno, com menor risco. A pesquisa aponta, no entanto, que esta regra tem exceções: em alguns países as ações tiveram um desempenho melhor. Além disto, a diversificação com imóveis é mais difícil, já que o custo de transação é maior e a liquidez é menor. Mas os autores observam que a correlação mundial do investimento em ações é cada vez maior, reduzindo o ganho com a diversificação


Ao comparar os dois tipos de investimentos “seguros”, a pesquisa encontrou que o retorno destes títulos são mais voláteis no curto prazo. Em tempos de paz, o retorno dos ativos seguros esteve entre 1 a 3%. Assim, uma comparação usando o trade-off risco e retorno mostra que os investimentos “seguros” são ruins: são famosos por serem sem risco, mas não o são; e possuem um retorno baixo, típico de investimento sem risco. Esta equação termina ser boa para as finanças públicas dos países, como chamam a atenção a pesquisa, pois é possível lançar um título com baixo rendimento, sem ter baixo risco.
A comparação entre estes dois tipos de investimento - com e sem risco - resulta no prêmio pelo risco. Os autores encontraram que em média o prêmio foi entre 4 a 5% nos tempos de paz. Este prêmio cresceu substancialmente no período após as duas guerras, mas nos anos recentes esteve abaixo dos 4%.
Baseado nesta série histórica, uma boa estimativa para os parâmetros usados no cálculo do retorno esperado é a seguinte: Rf = 1 a 3%; Rm = 7%.

Jordà, Òscar et al. The Rate of Return on Everything, 1870–2015 December 2017 Working Paper.

11.6.19

Clube de Futebol e Valor

O processo de avaliação é antes de tudo uma opinião. Cabe ao analista indicar se sua opinião é crível ou não. Se o analista usa uma base de dados passado e de qualidade, analisando os diferentes aspectos do objeto avaliado, poderemos ser convencidos de que a opinião é razoável ou não. Caso os dados sejam frágeis ou baseados em métodos não claros, podemos acreditar ou não no analista baseado em outros parâmetros, como a expertise do mesmo ou a qualidade do seu acerto.

Aqui temos um outro ponto importante: para verificar se a opinião do analista é coerente, precisamos ter algo com que confrontar. Se um analista afirma que as ações de uma empresa valem um determinado montante e aparece investidores dispostos a comprar as ações por um valor próximo a estimativa realizada, podemos acreditar que o analista acertou na sua opinião. Mas mesmo neste caso podemos duvidar da capacidade do analista, pois não sabemos se seu acerto ocorreu pelo acaso ou pela qualidade da sua opinião.

A tarefa pode complicar ainda mais quando o objeto a ser analisado é complexo o suficiente para termos somente métodos que se aproximam da mensuração adequada.

Toda esta introdução é para falar do relatório sobre marcas do futebol, elaborado pela BDO. Esta empresa teve a sagacidade de escolher um assunto de interesse de muitos. Entretanto, avaliar o futebol brasileiro é uma tarefa ingrata, em razão da qualidade dos dados. As demonstrações contábeis dos clubes são de baixa qualidade, como é o caso recente do Corinthians e outros clubes brasileiros. Além disto, temos problemas sérios relacionados com a mensuração de marca. E para finalizar, é muito difícil fazer a comprovação da qualidade da mensuração realizada, pois não temos negociações (quando temos é um exceção) ou ações negociadas em bolsa, como ocorre na Europa.

Com respeito aos dados, os valores são enviesados pela existência de uma receita de valor elevado e que não necessariamente é recorrente: a receita proveniente da comercialização de atletas. Eis um exemplo: em 2017 a receita do Flamengo foi de 649 milhões de reais. Mas esta receita cai para 466 milhões se retirar a transferência. A diferença refere-se a comercialização de alguns atletas, entre eles um jogador chamado Vinícius Júnior. Como lidar com esta situação? Retirar a comercialização permite ter uma comparação mais estável ao longo do tempo; mas parte do valor de um clube (e sua marca) é originária da capacidade de revelar novos jogadores.

Se as informações de qualidade são um problema, o método usado para estimar o valor de uma marca de um clube de futebol pode ser outro complicador. Existem diversas metodologias que podem ser usadas como proxy em tais situações. Um delas é mensurar quanto é possível gerar de receita pela existência de uma marca. Se um torcedor está disposto a pagar um valor elevado por uma camisa oficial de um clube, a diferença entre o preço da camisa e o preço de uma camisa sem esta “marca” poderia ser considerada dentro do valor da marca. Neste caso, o clube consegue internalizar sua marca, gerando receita com a mesma. Isto provavelmente não ocorre no Brasil, já que usualmente os torcedores não compram a camisa oficial do clube (nem um ex-deputado e presidente da república paga por uma camisa oficial, preferindo uma cópia pirata).

Em resumo, é difícil opinar sobre o valor de uma marcar, mas esta tarefa talvez seja mais difícil quando se trata de uma marca de um clube de futebol brasileiro. Segundo a BDO:

“O estudo seguiu rigorosa métrica que inclui mais de 30 diferentes variáveis entre dados financeiros, históricos dos clubes, informações publicadas em pesquisas com os torcedores, dados de marketing esportivo, hábitos de consumo dos torcedores, engajamento em mídias sociais e dados sociais e econômicos do mercado em que atuam os clubes analisados.”

Isto não ajuda a esclarecer muito sobre o método. Em postagem anterior, discutimos sobre o uso de múltiplo para avaliar clubes de futebol. Vamos usar esta discussão para fazer nossa análise. Na figura abaixo coloquei o valor da marca dos clubes e o valor usando o múltiplo de 3,2 (método CATS). Note que estamos comparando algo diferente: a BDO mensura a marca; estamos mensurando o valor do clube, que é mais abrangente que a medida da BDO. Além disto, usamos a receita total; ou seja,  nosso resultado pode estar sendo influenciado pela venda de jogadores.
O gráfico mostra que em geral nossa estimativa é maior que a BDO, o que era esperado. Em média, os 25 clubes foram avaliados em 672 milhões usando o múltiplo e a marca recebeu uma avaliação de 435 milhões. Em alguns casos, a diferença foi expressiva. Avaliamos a Chapecoense em 319 milhões, enquanto a BDO considerou que a marca deste time tem um valor de 58 milhões. Mas nossa estimativa coloca o Corinthians como tendo um valor de R$1,25 bilhão versus R$1,74 bilhão da BDO. (Este é o único clube onde o valor do múltiplo foi menor que o valor da marca)

Em geral, as diferenças entre os dois métodos foi menor para os clubes de maior valor e aumentou substancialmente para os pequenos clubes, como é o caso da Chapecoense. Mas qual o método é melhor? É impossível responder a esta pergunta por dois motivos. Em primeiro lugar, não temos um conjunto de negociações de marcas (ou de clubes) que possa indicar quem estaria com a razão. Se ocorressem 25 transações de clubes e caso meus valores estivessem mais próximos dos valores transacionados, o meu método seria melhor. Em segundo lugar, estamos mensurando algo diferente e não temos condições de analisar se o método da BDO é razoável ou não. A afirmação da empresa, reproduzida acima, não permite verificar se os seus valores são razoáveis ou não.

10.6.19

Valor do Software aberto

Qual o valor de um software aberto? Geralmente este tipo de software foi desenvolvido através da contribuição de várias pessoas, sem que tenham sido remunerados por isto. O Linux foi desenvolvido na Finlândia, em uma universidade; o R, em uma universidade da Nova Zelândia. As pessoas que trabalharam nestes softwares, o fizeram de maneira gratuita. Por este motivo, o software aberto não é considerado para fins do cálculo do valor ou da produção de uma economia. Seis pesquisadores propuseram uma maneira de mensurar uma estimativa do custo do software aberto. Para isto, eles mensuraram o valor de quatro “pacotes”: R, Python, Julia e JavaScript. Estes pacotes tiveram aplicações desenvolvidas por diferentes pessoas e o processo está armazenado no GitHub, uma repositório onde os programadores deixam seus produtos para qualquer pessoa ter acesso. Usando esta informação, os pesquisadores olharam as linhas adicionadas e deletadas em um esforço comum para o desenvolvimento de aplicações.

Com base nisto, determinaram o custo do desenvolvimento através da seguinte expressão:

Custo do Desenvolvimento = Salário mensal x Tempo de desenvolvimento nominal.

O salário mensal foi estimado a partir do valor recebido por um programador médio. O tempo de desenvolvimento é função das linhas de código, o número de pessoas por mês e a quantidade de tempo que levou para desenvolver uma aplicação. O resultado mostra que a contribuição dos pacotes em R desenvolvidos corresponde a um custo de US$854 milhões por ano, para um total de 3.396 pacotes. Ou seja, se uma empresa tivesse que desenvolver estes pacotes, seus gastos seriam neste valor. Para os demais, a estimativa foi a seguinte: Python = 747 milhões, Julia=239 e JavaScript = 1.199. Isto totaliza mais de 3 bilhões de dólares por ano.

Open source software is everywhere, both as specialized applications nurtured by devoted user communities, and as digital infrastructure underlying platforms used by millions daily. This type of software is developed, maintained, and extended both within the private sector and outside of it, through the contribution of people from businesses, universities, government research institutions, nonprofits, and as individuals. This paper proposes and prototypes a method to document the scope and impact of open source software created by these sectors, thereby extending existing measures of publicly-funded research output. We estimate the cost of developing packages for the open source software languages R, Python, Julia, and JavaScript, as well as re-use statistics for R packages. These reuse statistics are measures of relative value. We estimate that the resource cost for developing R, Python, Julia, and JavaScript exceeds $3 billion dollars, based on 2017 costs. 

Fonte: The Scope and Impact of Open Source Software: A Framework for Analysis and Preliminary Cost Estimates. Carol A. Robbins* (NCSES, NSF) et al.

6.5.19

Xamã moderno



Xamã é alguém que pode“acessar outras dimensões, através de um estado extático e fazer contato com aliados (animais, vegetais, minerais) e espíritos ancestrais”. É uma prática que está desaparecendo com o progresso humano e a expansão da civilização ocidental. Entretanto, ainda existem xamãs no mundo, embora parece algo contrário a racionalidade humana.

Um artigo da The Conversation escrito por Manvir Singh mostra como ainda estão presentes na Indonésia. Singh pergunta se realmente o xamã seria algo distante da sociedade moderna.

Segundo o cientista cognitivo Samuel Johnson, os gestores de dinheiro financeiro são candidatos prováveis. Os gerentes de dinheiro não conseguem superar o mercado - na verdade, eles até não conseguem superar sistematicamente os outros -, mas os clientes continuam pagando-os para adivinhar os futuros preços das ações.

Essa fé pode vir da crença de sua alteridade fundamental. Johnson ressalta que os gerentes financeiros enfatizam suas diferenças em relação aos clientes, exibindo um carisma extremo e agendas de trabalho sobre-humanas duradouras. Os gerentes também se adornam com graus matemáticos avançados e usam modelos estatísticos complicados para prever o mercado. Embora os gerentes financeiros não entrem em transe, seus diplomas e modelos garantem aos clientes que os especialistas podem investigar forças opacas.

Não são os únicos, estando em companhia de analistas esportivos, analistas políticos, conselheiros políticos, previsores, entre outros.

O xamanismo não é uma tradição arcana restrita a um passado antigo ou círculos da Nova Era. É uma conseqüência quase inevitável de nossas intuições humanas sobre habilidades especiais e nosso desejo de controlar a incerteza, e elementos dela aparecem em toda parte.

18.3.19

Maiores marcas do mundo (2000 a 2018)

Via aqui

Avaliando uma propriedade

Em 1987 o cantor Michael Jackson pagou quase 20 milhões de dólares - algumas fontes dizem que chegou perto de 30 milhões - por um terreno de 1,1 mil hectares em Los Olivos, Califórnia. Junto com ele, uma casa de 1,2 mil metros quadrados. Originalmente era chamado de Zaca Laderas Ranch, depois Sycamore Valley Ranch e em 1988 foi renomeada de Neverland, em homenagem a terra onde morava Peter Pan, um garoto que nunca cresce. Era realmente a casa de Jackson e tinha um parque de diversões privado, estátuas no jardim e um zoológico.

A partir de 2006 as instalações foram fechadas e a maioria dos funcionários demitida já que Jackson não morava mais no rancho. Há uma associação entre o rancho e acusações de abuso sexual do cantor. Em 2008 a propriedade passou para a Colony Capital em razão da inadimplência de Jackson com alguns credores. O valor da transação foi de 22,5 milhões. Provavelmente Jackson ainda tinha uma participação na propriedade. Em 2009 acabou o parque de diversões e o zoológico. Em 2015 é anunciado que o rancho seria vendido por um preço inicial de 100 milhões de dólares. Por conta da falta de interessados, o preço cai para 67 milhões no início de 2017. Em fevereiro deste ano o preço pedido caiu para 31 milhões.
Parte da queda no preço se deve aos problemas envolvendo Jackson narrados em Leaving Neverland. Mas alguns especialistas, consultados pela Forbes, discordam do fato. Quando a propriedade foi colocada para venda no valor de 100 milhões acredita-se na possibilidade de um “prêmio” pelo fato de ter sido a casa de Michael Jackson. O potencial comprador poderia usar a casa para construir um museu do cantor, a exemplo do que Elvis Presley possui. Entretanto, a localização isolada do rancho e a imagem ruim do cantor são problemas para este uso. Os avaliadores acreditam que o pedido de 100 milhões é elevado demais para a propriedade.

As celebridades geralmente pedem um valor premium por suas propriedades, mas normalmente essa “taxa” não é adicionada quando a propriedade é vendida. Um estudo da corretora de imóveis Redfin, de 2016, que analisou 60 propriedades de celebridades no sul da Califórnia, constatou que, em média, elas permaneceram no mercado por cerca de 36 dias a mais do que as outras, e a maioria foi vendida por menos do que o preço pedido.

A Forbes avaliou Neverland em 28 milhões tendo por base as entrevistas realizadas. Este valor é próximo aos 31 milhões pedidos hoje, mas abaixo dos 19,5 milhões pagos na compra corrigidos pela inflação. O custo corrigido seria aqui 44,1 milhões de dólares em 2019. Assim, o novo preço pode atrair compradores. O uso alternativa da propriedade - como terra agrícola - é descartado pelo tamanho do terreno e o retorno produzido por este tipo de uso:

Eric O’Keefe, editor da revista especializada “Land Report”, define que os compradores normalmente gastam centenas de milhões de dólares apenas em propriedades que julgam ter a capacidade de proporcionar um retorno significativo sobre o investimento: terras agrícolas produtivas, extração madeireira ou vinhedos, por exemplo. Duas propriedades em uma área total de 1,4 mil hectare em Santa Bárbara, Califórnia, que foram colocadas à venda por US$ 110 milhões, contam com uma fazenda de gado em funcionamento e dois pomares.

Mas talvez uma explicação para esta questão seja o fato de que Jackson tenha pago um valor muito elevado quando adquiriu Neverland. E o cantor não era conhecido pela qualidade dos seus investimentos.

14.3.19

UBS punido por OPA em Hong Kong

Isto não é muito comum, mas o Securities and Futures Commission (SFC), a entidade que regula os valores mobiliários em Hong Kong multou a UBS e proibiu de participar de ofertas públicas de ações por um ano na cidade. Outras entidades, como o Morgan Stanley, a Merril Lynch e o Standard Chartered também foram punidas, informou a Reuters.

É importante lembrar que Hong Kong foi o principal ponto de oferta de ações em 2018, com 36,3 bilhões de dólares captados. Assim, a punição merece destaque, além do fato de que este tipo de punição é a primeira vez que ocorre em Hong Kong. O SFC está preocupado com a qualidade do trabalho feito.

As ofertas de ações em Hong Kong precisa de um banco patrocinador, que assume a liderança da oferta. Também recebe mais por isto. Este banco deve fazer uma diligência no momento da avaliação da empresa que está sendo listada e assegura que o valor é adequado. No caso da UBS, isto não ocorreu com a China Forestry, com a Tianhe Chemicals e uma terceira empresa, não identificada, provavelmente a China Metal Recycling. A primeira empresa fez uma oferta pública de ações em 2009 e 14 meses depois o auditor relatou irregularidades; posteriormente a empresa foi liquidada. A UBS não verificou as florestas da empresa. O Stanchart chegou a visitar, mas constatou que não existia coerência entre os locais visitados e os indicados no prospecto. A segunda empresa fez a OPA em 2014 e suas ações não são mais negociadas desde 2015 depois de problemas contábeis.

5.11.18

Vitória de Pirro

Recentemente, o tenista Roger Federer anunciou que estava deixando o contrato com a Nike. Federer escolheu uma marca pouco conhecida, a Uniqlo. Mas a marca "RF" (que inclui o design), que ele usava no tênis e na camisa, é de propriedade da Nike, que criou o design em 2010.

Especialistas disseram que provavelmente a Nike deve vencer uma batalha judicial, se Federer insistir em ter a marca RF.

Jacqueline Pang, advogada do especialista em IP Mewburn Ellis, disse ao Tennis World USA que a posição legal da Nike é forte e que poderia continuar a explorar a marca, mas alertou que, ao fazer isso, a gigante do vestuário pode alienar uma base de fãs mais leal. para Federer, em vez de Nike.

Mas para Nike, reter a marca pode ser complicado. Uma vitória de Pirro, conforme afirmou a especialista. Isto pode provocar a ira dos fãs leais de Federer.

31.10.18

Estratégia Hallowen

Hoje é dia do Hallowen. Nesta data é interessante lembrar da “estratégia Hallowen” de aplicação no mercado acionário. O que consiste? Há um ditado popular em alguns países que afirma que você deve vender suas ações em maio e comprar no Hallowen. Em 2002, uma pesquisa com 36 mercados mundiais mostrou que esta regra, que coloca em dúvida a eficiência do mercado acionário, realmente funcionava. A estratégia superou a “buy and hold” por larga margem.

Em 2012, Jacobsen e Zhang usaram quase 70 mil observações de todos índices de mercados de ações do mundo para comprovar que o retorno de novembro a abril era 4% maior que o retorno entre maio e outubro.

Este não é a única situação onde o efeito calendário funciona. Mas para o dia, talvez seja o mais interessante. Resumindo: invista hoje no mercado de ações.

15.10.18

Laudo de Avaliação

O laudo de avaliação corresponde ao documento formal onde o analista detalha os passos seguidos para se chegar ao valor de uma empresa, das ações de uma empresa ou de um ativo específico. Em muitas situações é importante que o analista construa este documento formal, pois o mesmo poderá servir de base para decisões. Se uma empresa deseja comprar ações de outra, o laudo pode indicar as razões para o preço ofertado.

A principal característica de um bom laudo é permitir que o seu leitor possa entender o que levou ao valor final daquilo que se pretende avaliar. O ideal seria que o laudo pudesse convencer quem está lendo de que o valor obtido é o mais adequado e que todas as variáveis foram levadas em consideração. Assim, se o laudo está projetando um crescimento da receita de uma empresa para o próximo ano, o laudo deve oferecer os elementos necessários para que o leitor possa ficar convencido de que a hipótese considerada no documento é razoável.

Não existe um laudo padrão, mas algumas entidades reguladoras procuram estabelecer certos requisitos ou informações que devem constar do mesmo. O que será descrito a seguir é somente uma sugestão para alguém que deseja fazer um relatório.

Partes que compõe um laudo 

De uma maneira geral, um relatório de avaliação apresenta as seguintes partes:

Resumo executivo 

Muitos relatórios são preparados para pessoas que possuem pouco tempo para ler com detalhe o seu conteúdo. Ou pessoas que acham que possuem pouco tempo. Neste caso, um resumo executivo pode ser útil. É importante destacar que a existência do resumo executivo tende a induzir a opinião do leitor; assim, sua redação deve ser feita com muito cuidado, indicando pelo menos o objeto da avaliação, o método usado, os direcionadores mais relevantes e o seu resultado final. Este resumo não deve ultrapassar a uma página.

Também pode ser elaborado um breve resumo ao final ou início de cada um dos itens, em especial para aquelas partes mais longas do texto.

Introdução

O principal ponto da introdução é apresentar o objetivo do laudo. Ou seja, o que motivou o analista a preparar o documento. Nas primeiras linhas é possível indicar também a relação do avaliador com o objeto da análise: se foi contratado por alguma empresa, se tem interesse particular na avaliação, etc. Caso exista uma relação do avaliador com o objeto, pode ser relevante indicar os cuidados tomados para a sua isenção com os resultados do laudo. A data de referência do laudo pode ser informada na introdução, embora também deva ser destacada no final do relatório.

Na introdução também é possível apresentar o currículo do avaliador, destacando as habilidades e competências do mesmo para elaborar o laudo. Também pode apresentar aqui a remuneração do avaliador, se é que ela existiu. Existindo mais de um avaliador, pode constar o currículo de toda a equipe ou somente do responsável principal.

Se existirem controvérsias com respeito a alguns termos técnicos, o laudo pode indicar na introdução (ou logo após ou no final) as definições mais relevantes. Também pode constar uma descrição sumária do objeto de avaliação.

Objeto

Neste trecho, o laudo deve delimitar o objeto. Se a avaliação é de uma empresa, o que está sendo considerado e o que não está sendo considerado. Se a empresa faz parte de um grupo, é importante delimitar se a avaliação está considerando somente a empresa. Caso a avaliação é referente a uma filial da empresa, isto deve estar claro no laudo.

Como em muitos casos o objeto de avaliação pode não ser de conhecimento de todos os leitores do relatório, é importante destacar as principais características do objeto. Pode ser até interessante fazer um breve histórico deste objeto. Em uma empresa, traçar uma descrição do seu início, os fatos mais marcantes, as principais dificuldades e conquistas. Também fazer um relato do setor de atuação, o número de empregados, o seu porte e apresentar, de maneira resumida, algumas informações financeiras.

Pode-se fazer nesta seção, ou em uma seção em separado, uma análise do desempenho dos últimos anos. Para uma empresa, uma análise das demonstrações contábeis, focando a sua rentabilidade, a estrutura de capital, as políticas de investimentos, de giro e de distribuição de dividendos, entre outras, pode ser útil para compreensão dos resultados que serão apresentados na avaliação.

 Análise Macro

Para contextualizar a avaliação, pode ser apresentado o ambiente econômico onde está inserido o objeto. Para uma empresa, isto inclui uma análise dos países onde atua e a perspectiva para os próximos anos. Também é importante uma análise do setor de atuação, as principais ameaças e os pontos fortes. Fatores como evolução tecnológica, inflação, emprego, taxa de juros, consumo, mudança demográfica, mercado de capitais (incluindo bolsa de valores), fatores políticos, entre outros, podem ser considerados. Uma análise dos principais concorrentes é útil, já que isto geralmente afeta o resultado da avaliação.

Apresentação do Método 

Um relatório de avaliação pode usar um método principal para chegar ao valor do objeto. Mas nada impede de outros métodos secundários sejam usados e os resultados comparados. A ideia aqui é permitir uma análise criteriosa do objeto. Exemplificando, o método de custo pode ser útil para uma situação de liquidação, mas não adequada para uma situação de continuidade.

Muitos métodos de avaliação de empresas, quando partem das mesmas suposições, devem, obrigatoriamente, chegar ao mesmo resultado. Neste caso, a apresentação destas diferentes formas pode dar mais segurança para o avaliador. Isso ocorre, por exemplo, quando se usa o fluxo de caixa dos acionistas ou o fluxo de caixa livre para estimar o valor.

Caso o avaliador tenha optado por algum tratamento específico nos cálculos, isto deve ser indicador. Se, por exemplo, o avaliador fez algum ajuste adicional na avaliação de uma empresa por conta do controle, da liquidez, de riscos regulatórios e específicos, isto deve estar claro no laudo, mostrando, se for possível, a sustentação para tais ajustes. Alguns dos ajustes pode ser uma opinião do responsável pelo laudo, mas isto deve estar claro no relatório.

Base de Dados 

É importante também apresentar a base de dados que foi usada para o relatório. O relato da base de dados pode permitir que os interessados refaçam os cálculos realizados. Quando a base é pública, a indicação da fonte pode ser suficiente. Mas quando os dados não são de conhecimento de todos, é interessante que os mesmos sejam apresentados em algum lugar do relatório, talvez nos anexos.

Em muitos casos, existe mais de uma possibilidade de base de dados. É o caso da variação dos preços, onde é possível escolher um índice de inflação entre os diversos que são calculados. Caso esta escolha seja relevante para o resultado final, é interessante uma justificativa da opção. E eventualmente, que seja feita uma análise adicional com a base de dados alternativa.

Projeções 

Neste trecho, o relatório irá apresentar os valores projetados usados nos cálculos. Este item é crítico, pois cada avaliador deverá fazer uma projeção diferente para cada objeto de análise. Além disto, projeção geralmente diz respeito ao futuro e sempre haverá incerteza e imprecisão nesse ponto.

Se o método usado for o fluxo de caixa descontado, as projeções serão do fluxo de caixa projetado, bem como das taxas de descontos usadas, que irão refletir o custo de oportunidade do capital.

Também devem ser projetados, se for o caso, o valor terminal ou valor da perpetuidade. Em muitos casos, as projeções relacionados com o objeto dependem de projeções de variáveis econômicas, políticas, demográficas e outras. Os valores usados nestas projeções devem ser explicitados no relatório.

Análise de Sensibilidade 

A análise de sensibilidade é útil para indicar os direcionadores de valor e como uma alteração nas principais suposições pode afetar o resultado final. Uma forma simples de executar a análise de sensibilidade é verificar a influência de uma variação de 10% na projeção de determinado item sobre o valor obtido. Quanto maior esta variação, mais relevante será esta variável para o valor obtido.

Em alguns casos, o relatório pode fazer um confronto com outros resultados prévios de avaliação, indicando as diferenças e a razão dos resultados divergentes. Este item pode ser chamado de análise adicional

Opinião 

Um laudo termina com a opinião do avaliador sobre o que está sendo mensurado. Algo como “em minha opinião, o objeto de análise tem um valor de $$$, na data xx/xx/xx”. O trecho da opinião pode ressalvar, no seu início, as bases para avaliação e lembrar as limitações do valor calculado. Mas a opinião deve ser o grande destaque deste item.

Fontes da Informação 

Este item pode estar na introdução ou no final. O trecho deve indicar os principais documentos e fontes que foram usados para fazer o laudo, incluindo as demonstrações contábeis, outros laudos, cópias de contratos e outras informações internas, fontes das informações macroeconômicas e setoriais, entrevistas realizadas, entre outras. Por ser um relatório técnico, não é relevante que o laudo siga normas técnicas - do tipo ABNT - exceto quando isto estiver no escopo do trabalho. Também não é relevante citar referências científicas, embora isto possa trazer uma seriedade maior ao texto. 

Apêndices e Anexos

Nos apêndices, o relatório pode incluir os dados mais detalhados usados nas projeções, os cálculos das projeções, as definições técnicas (pode ser aqui ou no início do relatório). Os anexos devem constar os conteúdos que não são a essência do laudo, cuja a fonte são terceiros.

Sobre a Forma do Relatório 

Os pontos anteriores referem-se ao conteúdo de um relatório. É necessário alguns comentários sobre a forma do relatório.

Software 

De uma maneira geral, os cálculos de avaliação são feitos em planilha. Posteriormente, os resultados são apresentados em um editor de texto, em conjunto com um programa de apresentação de slides. Alguns pacotes permitem uma integração entre a planilha e o editor de texto, o que facilita a mudança do relatório, quando houver uma alteração nos cálculos.

Aqui o analista deve tomar o cuidado de fazer uma apresentação profissional cuidadosa, evitando erros de digitação / linguagem, fazendo um layout do relatório agradável para o leitor. Estes cuidados incluem a escolha da letra e seu tamanho e a disposição da informação no texto (incluindo tabelas e gráficos). Apesar da essência do relatório ser importante, a forma conta muito para sua credibilidade. 

Opinião Coerente

O laudo é uma opinião. Cada avaliador deveria ter uma ampla liberdade para enunciar sua opinião sobre o objeto de avaliação. Mas na prática, o leitor quer saber a origem das informações e se os resultados são coerentes. Se uma ação de uma empresa foi avaliada por diversos especialistas em torno de X e o laudo apresentado é um valor bastante diferente deste, é importante que esta opinião esteja embasada em argumentos sólidos ou lógicos.

Da mesma forma, um avaliador que usou uma projeção de crescimento da economia de 4% em um laudo, não pode usar uma projeção de 15% em outro laudo, exceto se as condições tenham mudado substancialmente. Neste caso, o avaliador deve indicar as razões da mudança de opinião.

Citar ou não citar 

É comum que muitas informações de um laudo tenham origem em fontes de terceiros. Apesar do laudo não ser um trabalho acadêmico, é importante citar as fontes por dois motivos. A citação de um fonte de informação com credibilidade, como o Banco Central ou outra entidade com renome, corresponde a um argumento de autoridade. O Banco Central é uma autoridade quando o assunto é a taxa de juros da economia. Sua citação melhora a qualidade do texto para o leitor. O segundo motivo é que um avaliador que usa uma fonte e não faz a referência pode ser acusado de plágio, estando sujeito inclusive a punições por parte da legislação brasileira. E para quem o contratou, passa um impressão de pouco profissionalismo.

É importante destacar que o avaliador pode discordar de uma “autoridade”. Neste caso, ou busca outras autoridades com opiniões próximas aquelas expressas no laudo ou apresenta os argumentos que levaram a não usar os dados destas autoridades.

Tamanho do laudo

Não existe um padrão de tamanho de um laudo. Geralmente esperamos um tamanho maior, quanto maior for a remuneração do avaliador. E também acreditamos que laudos maiores poderiam ser um sinal de laudos melhores, embora isto nem sempre seja verdadeiro. Em razão dos itens que foram citados anteriormente, o tamanho de um laudo deve ultrapassar facilmente as dez páginas.

Tabela ou gráfico 

A presença de gráfico facilita a leitura de um relatório. Mas não substitui a tabela. Assim, as informações principais podem estar em um gráfico dentro do laudo, destacando o conteúdo. Mas os valores que foram usados para construir o gráfico devem estar em uma tabela ao final do laudo se a informação for relevante para o resultado final.

Quando se usa um gráfico é necessário saber escolher a melhor opção. Por exemplo, geralmente não usamos um gráfico de pizza para mostrar a evolução temporal de um item; neste caso, o melhor é um gráfico de linha. Os gráficos mais sofisticados, como aqueles em 3D, deve ser usados se o provável leitor tiver condições de entender o conteúdo.

Dificuldade 

De uma maneira geral, o conteúdo de um laudo deve ser acessível para um leitor com um conhecimento mediano em gestão financeira. Assim, não é necessário explicar, por exemplo, o conceito de ativo, já que é possível admitir que o leitor irá entender esta terminologia.

Muitos relatórios técnicos são elaborados de maneira a tornar difícil a sua leitura. A finalidade é reduzir eventuais questionamentos com o aumento na complexidade. Esta é uma estratégia que pode funcionar em alguns casos, desde que o leitor não tenha um grau de conhecimento sofisticado sobre o assunto.

26.9.18

Numeros divergentes

Em junho de 2018 a International Meal Company Alimentação (IMC), proprietária das redes Frango Assado e Viena, fez um acordo de cooperação e fusão com a empresa Sapore, de refeições coletivas. O acordo previa que na nova empresa, a Sapore ficaria com 41,79% das ações.

No mês seguinte, o acordo foi aprovado no Cade, o conselho que regula grandes operações de aquisições e fusões no Brasil. A nova empresa teria uma receita acima de R$3,1 bilhões e mais de 24 mil funcionários.

Depois disto, começou o processo de due dilligence. Em meados de setembro, a IMC anunciou que estava rescindindo o acordo de fusão. Neste processo, ocorreram divergências entre o trabalho realizado de ambos os lados, que não foram conciliadas. Segundo divulgado, as divergências estavam no balanço que seria a base para a negociação. A partir dos números encontrados pela KPMG e pela EY, a Sapore deveria ter entre 41% a 42,5% do novo negócio - na ótica desta, ou no máximo 25% da nova empresa, segundo a IMC.

Do lado da IMC, a maior divergência estaria no Ebitda recorrente. De um lado, este valor seria 120,6 milhões de reais; de outro, R$87,2 milhões. Havia divergência sobre créditos tributários e contingências trabalhistas, que deveriam ser provisionados ou não. Na análise da Sapore havia dúvidas sobre o valor da dívida líquida: 201,3 milhões (posição de dezembro) ou 102 milhões (constante do acordo).

A impressão que ficou é que os números foram usados para romper um acordo entre duas empresas com culturas diferentes. A IMC é uma empresa com ações na bolsa e comando mais descentralizado, o oposto da Sapore, que era comandada por um administrador centralizador, que gostaria de ser o chefão da nova empresa. 

23.9.18

Kroton + Somos

A Kroton concretizou a aquisição da Somos. Dois aspectos destacam no processo:

1) O CADE aprovou a operação sem qualquer restrição. A surpresa aqui não é o fato da empresa resultante ser a maior empresa do país, do infantil até o superior. O setor de educação sempre foi pulverizado no Brasil e a concentração recente poderia despertar reações ideológicas ou algo do tipo. Além disto, nas operações recentes o CADE tem se mostrado mais criterioso com seus pareceres, impondo restrições onde existe permissividade.

2) Os gestores indicaram uma sinergia de 300 milhões de reais, para um valor de compra de 6,3 bilhões ou 5%. A sinergia é o fato de uma empresa (SOMOS+KROTON) em conjunto obter um valor adicional em relação as duas empresas em separado. Além de ser um valor reduzido, é sempre muito questionável a existência desta sinergia.

21.9.18

Contabilidade e Avaliação

Um trecho interessante (via aqui) sobre uma discussão entre controlador e minoritários:

A mudança nos valores da oferta pública foi definida pela área técnica da CVM e está baseada nos relatórios apresentados pela State Grid em meados de junho. De acordo com o ofício enviado na segunda-feira à CPFL e seus assessores financeiros, os cálculos devem ser feitos com base no IFRS (normas contábeis internacionais), que consolida os números de todas as controladas da CPFL. 

 A determinação da CVM segue uma linha bastante criticada pelos minoritários da Renováveis, que em julho protocolaram uma contestação aos valores propostos pela chinesa. Na época, um dos argumentos usados para derrubar a revisão do preço feita pela State Grid era de que a multinacional teria tentado alterar os fundamentos da justificativa de preço original, usado informações financeiras selecionadas. A acusação era que a empresa não teria feito os cálculos com base no IFRS.

A rigor, não faz sentido a queixa de não se ter usado a IFRS. A contabilidade só é relevante para a avaliação quando (a) afeta o processo decisório ou (b) interfere na apuração futura de fluxo de caixa (como apuração de imposto). Assim, ter ou não feito os cálculos com base no IFRS não pode ser considerado, a priori, um aspecto relevante da questão.

19.9.18

Valor terminal em Medicamentos

Estava estudando sobre valor terminal (ou residual) e por coincidência encontrei este exemplo. Em uma companhia farmacêutica, existe um período onde a empresa que descobriu um fármaco teria o direito de exclusividade, seguido por um período de livre concorrência. No segundo período, o governo passa a permitir genéricos. Estes concorrentes possuem preço baixo, com a mesma qualidade do produto desenvolvido anteriormente.

Um exemplo, citado no texto, é a estatina. O produto como Lipitor tem um custo de 165 dólares com 30 comprimidos; o genérico custa 19 dólares para 90 comprimidos. Além de perder a receita, a empresa dona da marca também reduz sua participação no mercado. Mas o texto mostra que as empresas aprenderam a jogar com a lei:

À medida que a patente do medicamento original se aproximava da expiração, as empresas acrescentaram rugas - um novo revestimento para a pílula, uma versão de lançamento no tempo e assim por diante - que então patenteiam. E se estas [novas] patentes forem aprovadas, e geralmente são, o relógio de exclusividade começaria a funcionar novamente. Em outros casos, eles pagam a empresa de genéricos para manter sua versão do medicamento fora do mercado por mais alguns anos. Ou elas entram contra a empresa de genéricos na justiça, alegando infração. 

Isto ocorreu com Humira, um medicamento exclusivo para um tipo de artrite, que gera 16 bilhões de dólares de receita no mundo e pode custar até 50 mil dólares por ano para um paciente. A patente acabou em 2016 e não existe genérico, pois a empresa criou 100 novas patentes.

23.8.18

IPO da Aramco cancelada?

Ontem a agência de notícias Reuters divulgou que a oferta pública de ações da Saudi Aramco seria cancelada. A reportagem usou como fonte pessoas próximas do governo. Um dia depois, o ministro da energia da Arábia Saudita negou o texto da Reuters Inicialmente, a Reuters informou que a decisão de não fazer a oferta de ações da Aramco já tinha sido tomada há meses.

A estratégia para divulgar esta notícia passaria, inicialmente, pelo um atraso na oferta. Posteriormente seria feito a divulgação do seu cancelamento, segundo quatro fontes do setor. Quando da divulgação da notícia, a Reuters tentou entrar em contato com pessoas da empresa e não obteve resposta.

 O plano de oferta estava dentro do objetivo do governo da Arábia Saudita em fazer pesados investimentos para reduzir a dependência do país com o petróleo. Para isto, seriam necessários recursos, obtidos a partir da venda de 5% de uma empresa que era avaliada, pelo governo saudita, em 2 trilhões de dólares.

 A oferta enfrenta problemas sérios, como a dúvida sobre o valor de mercado - elevado segundo vários especialistas - e questões legais. Um potencial comprador das ações, a Rússia, teve uma série de problemas no passado com o governo saudita sobre a produção de petróleo. O potencial cancelamento talvez seja decorrente da incapacidade do governo saudita em aceitar as regras de negociação de ação, o que inclui uma avaliação independente, governança, necessidade transparência e divulgação dos números. Além disto, a prisão de diversas pessoas ricas no final de 2017 piorou este cenário.

25.7.18

Ser deve comprar a Unigranrio

O grupo Ser Educacional está concluindo a aquisição da Unigranrio por R$500 milhões, segundo informou o Valor Econômico. Segundo estimativa do texto, atualmente a Unigranrio possui 27 mil alunos. Isto representa cerca de R$18.500 por aluno.

Um bom negócio para a família Herdy. Anteriormente, dois professores da Universidade de Brasília estimaram um múltiplo médio corrigido para área de educação superior de 10.300, corrigidos. Como os cálculos terminaram em 2015, mesmo admitindo uma inflação de 25%, o valor proposto é bem superior ao múltiplo médio da área.

Uma explicação possível é a grande quantidade de alunos. Geralmente nas grandes aquisições, o múltiplo tende a ser maior, já que leva em consideração o intangível da instituição. Para o grupo Ser, a aquisição representa a entrada no Rio de Janeiro, onde a participação é pequena. Mesmo assim, o valor da negociação representa uma diferença de quase 40% entre o múltiplo corrigido (estimei em 13.300) e a proposta (18.500).

12.7.18

IFRS afeta valor?

Parece que sim. Veja o caso da CPFL Renováveis, que recebeu uma oferta da chinesa State Grid. Os minoritários protocolaram uma carta na CVM contestando a nova oferta.

Os minoritários da CPFL Renováveis – grupo que inclui grandes investidores como Pátria e BTG – protocolaram nesta quarta-feira, 11, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) carta contestando a nova oferta feita pela chinesa State Grid. No fim de junho, a controladora da CPFL Energia elevou de R$ 12,20 para R$ 13,81 o preço pelas ações da Renováveis – o que representa acréscimo de R$ 390 milhões ao preço original de quase R$ 3 bilhões.

O Estado apurou que os acionistas questionam a forma como o preço foi recalculado pela chinesa e reclamam da demora do processo, que se arrasta desde 2016. Um dos argumentos usados para derrubar a revisão do preço feita no mês passado é que a State Grid teria tentado alterar os fundamentos da justificativa de preço original e usado informações financeiras selecionadas. A acusação é que a empresa não teria feito os cálculos com base no IFRS (normas contáveis internacionais), que consolida os números de todas as controladas da companhia. (...)

A revisão do preço apresentada pela State Grid foi feita depois que o colegiado da CVM exigiu, no início de maio, ajustes nos cálculos. Na ocasião, a autarquia suspendeu a decisão de sua área técnica que definia preço mínimo de R$ 16,69 para a Oferta Pública de Ações (OPA) – o que significava algo em torno de R$ 1 bilhão a mais de desembolso da chinesa.

A State Grid foi responsável por uma das maiores transações do País em 2016, ao adquirir o Grupo CPFL Energia. Entre a compra do controle (da Camargo Corrêa) e das ações no mercado, a empresa desembolsou cerca de R$ 25 bilhões. O negócio também incluía a compra das ações da CPFL Renováveis, subsidiária do grupo de energia. Aí começou o conflito.

A chinesa oferecia R$ 12,20 para adquirir a participação no mercado, bem abaixo dos R$ 25 oferecidos aos minoritários da holding. Os acionistas da Renováveis não aceitaram a proposta e entraram com uma reclamação na CVM, que em fevereiro deste ano decidiu a favor dos minoritários ao estipular um limite de R$ 16,69 para a oferta. Essa definição, no entanto, foi derrubada pelo colegiado da autarquia, que pediu novos cálculos para a State Grid.

Na realidade, a adoção de uma norma contábil, como a IFRS, só afetaria o valor de uma empresa se isto influenciar na apuração de certas despesas desembolsáveis. Por exemplo, ao adotar as normas internacionais, isto pode afetar o cálculo das participações, se forem feitas a partir do resultado apurado segundo a IFRS. Isto seria válido para pagamento de imposto de renda (depende do caso), certas despesas financeiras com contratos que atrelam a certas metas de desempenho e distribuição de dividendos (mesmo assim, com ressalvas, já que a decisão de distribuição pode ser alterada na assembleia). E se a qualidade da norma alterar a percepção de risco, o que é bastante questionável. Assim, o fato da empresa não ter feito os cálculos tendo por base a IFRS deve ser visto com muita cautela como argumento.

29.6.18

Valor da discriminação

No ano passado foi divulgado um estudo que mediu o valor / preço da dor. Usando outra metodologia, com uma amostra menor, um estudo dinamarquês mediu o preço da discriminação no trabalho.

O estudo foi publicado no American Economic Journal: Applied Economics e envolveu um experimento. Tradicionalmente os estudos de discriminação são realizados através da análise dos currículos por parte dos empregadores e a chance de um nome usado em pessoas de raça negra, por exemplo Benedito, ser convidado para entrevista (vide Gneezy e List, Lo que importa es el porqué, por exemplo, onde os autores mostram o que ocorreu com List após a conclusão do seu doutorado). Este tipo de estudo tradicional de discriminação tem um grande problema: não é possível mensurar o preço da discriminação.

Usando adolescentes dinamarqueses, dois cientistas propuseram uma tarefa, que seria realizada em etapas. Em um primeiro momento, os jovens trabalhariam sozinhos, sendo possível medir a produtividade de cada um deles. Na segunda etapa, os jovens podiam escolher um parceiro, já que o trabalho seria em grupo. E o pagamento desta segunda etapa seria com base na produtividade da equipe. A informação sobre a produtividade individual era fornecida, assim como o nome do potencial parceiro. Alguns nomes eram tipicamente dinamarqueses e outros muçulmanos.

Caso um dinamarquês escolhesse um colega menos produtivo, mas com nome dinamarquês, isto seria um sinal que estaria disposto a abrir mão de dinheiro por conta da discriminação. A pesquisa descobriu que o valor da discriminação chegava a 8% dos ganhos. Assim, este seria o valor para trabalhar com alguém da mesma etnia. Um ponto importante é que a pesquisa descobriu que a discriminação ocorria tanto entre aqueles com nomes dinamarqueses, quanto com aqueles com nomes mulçumanos. Mas existe um limite: quando o custo é muito alto, os jovens aceitavam trabalhar com alguém de outra etnia.

Dois aspectos importantes da pesquisa: (1) um experimento não precisa ser invalidado se o mesmo é feito com uma pequena parcela da população (estudantes dinamarqueses); (2) não é o tamanho da amostra que determina a qualidade da pesquisa.